quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

o carnaval do caranguejo uça


Foco ambiental
O Carnaval do caranguejo-uçá Publicado em 23.01.2008, às 20h08
RICARDO BRAGA é ambientalista, professor da UFPE e ex-secretário executivo de meio ambiente de Pernambuco
“Chegou a época das fêmeas desová, aumentando próximo ao carnavá. Não sei se é na beira do rio ou da maré, no ciclo do caranguejo uçá só basta o mangue restar.” (Waldemar Vergara Filho, 1994)
Para muitos, o Carnaval começa com um gole de cachaça ou de cerveja, caranguejo, um dengo de namoro e as ruas inteiras para brincar. Depois vêm os blocos caranguejo-no-caçuá, guaiamum-treloso, siri-na-lata..., parece que nunca vai acabar.
O caranguejo-uçá também tem o seu Carnaval, mesmo longe das goladas de cachaça. A maré alta de fevereiro, o reboliço na toca de lama, o alvoroço pra namorar e a andada solta, ganhando o apicum nas bordas do manguezal. É o Carnaval, no dito dos pescadores do mangue, dos apanhadores de caranguejo.
O caranguejo-uçá, da espécie Ucides cordata, é um conhecido da nossa cultura litorânea. Às vezes, se diz que alguém só anda pra trás, como caranguejo, numa injusta alusão a quem anda mesmo é de lado. Ele vive nos manguezais da Flórida, da América Central e do Brasil, indo até Santa Catarina. Mas é no Nordeste que é prato símbolo, cozinhado com sal, verdura de cheiro e às vezes leite de coco.
Costuma-se dizer que caranguejo só está gordo nos meses que tem r. Tem lógica. De maio a agosto ele entoca na lama e cobre a entrada, quando se diz que está tapado. Aí se alimenta e engorda, para enfrentar a próxima etapa. Nessa fase, é apanhado na toca pelo homem do mangue ou pelo guaxinim. Mas de setembro a novembro já está em muda, ou ecdise, substituindo a carapaça para crescer. Em dezembro faz “espuma” e no início do ano aparece de andada, para acasalar, em carnaval.
Vê-se que a festa dos humanos tem semelhanças com a do uçá. Mas, enquanto a nossa se expande, os seres do mangue diminuem em população e poucos chegam a experimentar as delícias prosaicas e profanas. A pesca predatória e a degradação dos mangues levaram a uma crise de produção em vários estados, entre eles Pernambuco. Além disso, a Doença do Caranguejo Letárgico, que apareceu por aqui em 1997 e chegou ao Espírito Santo há dois anos, está dizimando os caranguejos brasileiros, sobretudo em ambientes mais agredidos pela poluição.
Hoje, ainda existe grande produção no Pará, Maranhão e Piauí. Na foz do rio Parnaíba, que se expande no mar em fantástico delta com mais de 70 ilhas e de dunas com lagunas de água doce, vi centenas de homens trabalhando pesado, na apanha dos milhões de caranguejos por ano. Vendem cada corda por valor irrisório, para consumo nas capitais por preço infinitamente maior. São, simultaneamente, cúmplices da dizimação dos estoques e vítimas da exploração pelos atravessadores.
Foliões ou não, precisamos salvar o Carnaval do caranguejo-uçá. Para isso é necessário, pelo menos, não capturar ou comprar: fêmeas (principalmente ovadas), caranguejos de andada e adultos menores que 5 cm. É fundamental também preservar o manguezal da ganância dos criadores de camarão e da poluição industrial e doméstica. Ou seja, lutar para que esse ecossistema se mantenha protegido e na sua condição produtiva.
Só assim, os próximos carnavais poderão começar com um gole de cachaça, um caranguejo e um dengo de namoro..., de andada até à quarta de cinzas, que não tarda a chegar.
ricardobraga.jc@gmail.com

Um comentário:

Anônimo disse...

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